quarta-feira, 1 de março de 2017

Chamem o Exército



O Brasil tem sofrido desde o final do século XIX de, entre outros, dois grandes males: 1. O Estado pode resolver todos os problemas da sociedade; 2. Há um problema grave e aparentemente insolúvel, chamem o Exército.
Estamos vivendo o momento paradigmático da história brasileira quanto à revoltas nos presídios. São décadas de descaso com a educação (o que não se investe em educação, se gasta na construção de presídios), século no completo esquecimento de uma política minimamente séria d e segurança e uma história de descaso, insensatez, falso moralismo e cinismo na política penitenciária.
Para completar, decorrente da incompetência dos governantes estaduais (situação que se perpetua por que quem de nós, respeitáveis cidadãos, questiona seus candidatos sobre sua política para os encarcerados?), o governo federal decidiu escalar os militares para inspecionar presídios.
Tal atitude busca o resultado midiático de que se está fazendo alguma coisa, porém, equivale a enfrentar o crime organizado empunhando uma espingarda de chumbinho. Quem o diz é Walter Maierovitch, desembargador aposentado e ex-secretário nacional Antidrogas.
Todos assistimos com ceticismo ao anúncio feito nesta terça (17) pelo porta-voz do presidente Michel Temer de que estava disponibilizando as forças armadas para controlar a carnificina que graça nas prisões.
Critica Maierovitch: "Mais uma vez, estão fazendo uso político das Forças Armadas diante de uma situação de descontrole. Já vimos isso acontecer antes, nos governos Lula e FHC".
É verdade. Quando vemos os textos jornalísticos sobre a revolta, vemos expressões como, “bandos de criminosos”, “facções de criminosos” e “ações de criminosos”, mas esquecemos que nossa sociedade prima pela hipocrisia.
Queremos penas cada vez maiores para aqueles que violam a lei mas, temos a metade das vagas do que criminosos para encarcerar. Aliás, já temos mais de 600 mil presidiários, a quarta maior população encarcerada do planeta e estamos longe de equalizar as questões de segurança pública. Por quê?
Porque queremos que o sujeito preso morra em uma masmorra fria, úmida, insalubre e se possível a ferros. Daí que, a revolta dos presidiários e sua união em grupos ou facções, nada mais é que o exercício do direito natural à vida e à liberdade, uma busca de sobreviver a uma sociedade desumana e desigual.
Evidentemente que a presença do exército não conterá a barbárie nas cadeias. Mais provável é que aconteça algum incidente grave maculando a instituição, ou pior, a contaminação de seus efetivos com a cultura do mundo marginal.
O mais novo Plano Nacional de Segurança Pública é mais uma das iniciativas dos últimos 30 anos para dar uma satisfação imediatista e inócua a um problema crônico (nada mais eficaz e ineficiente do que criar uma comissão estatal para resolver um problema).
A presidente do STF Ministra Carmen Lúcia propugnou um recenseamento dos presídios. Mas para que serve tal medida agora, se sabemos que há homens vivendo com menos de 1 metro quadrado, muitos deles sem julgamento, em pocilgas infectas dignas do inferno de Dante?
A responsabilidade pelo embrutecimento dos homens que hoje se imolam no altar do descaso e da insensatez é da sociedade, de nós eleitores. Elegemos para nos governar nos Estados políticos incapazes de vislumbrar outro objeto que não o Poder e sua perpetuação.
Somos os responsáveis porque é obrigação dos Estados administrar os infernos dantescos onde habitam nossos irmão de nacionalidade, questões nunca postas em campanhas, nunca equalizadas nos orçamentos, ficamos a exigir penas, mas não nos preocupamos com seu cumprimento e seu resgate.

Chamem o Exército, como sempre, uma medida muito eficaz, mas absolutamente ineficiente, demonstrando toda nossa impotência e hipocrisia.

*- Texto originalmente publicado no jornal Diário dos Campos, na coluna: pensar sem medo.

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